1 de jan. de 2011

ARGENTINA 
"Elas não podem mais esperar"
   
Mobilização pede justiça para vítimas de redes de tráfico para prostituição



Karol Assunção *


"Elas não podem mais esperar". É com essa palavra de ordem que integrantes de organizações feministas, sociais e políticas realizam, hoje (3), uma rádio aberta e uma ronda ao redor do Congresso da Argentina pelas mulheres e meninas desaparecidas e sequestradas pelas redes de tráfico para a prostituição. A mobilização está marcada para começar às 18h (horário local) em frente ao Congresso da Nação (Av. Entre Ríos e Av. Rivadavia), em Buenos Aires.


Na ocasião, a Associação Civil La Casa del Encuentro vai ler um documento que será apresentado à embaixada da República Dominicana e à chancelaria da Argentina sobre a situação de mulheres e meninas da República Dominicana no país sul-americano. Isso porque, de acordo com a Associação, muitas delas são atraídas para a Argentina para se prostituírem.


Entre as demandas, estão: aparecimento de todas as mulheres desaparecidas e sequestradas pelas redes de tráfico para a prostituição; reforma da Lei de Tráfico; declaração do tráfico de pessoas como Delito de Lesa Humanidade; desmantelamento das redes de tráfico e das cumplicidades das forças de segurança e dos poderes político e judicial; assistência efetiva e programa para as vítimas e seus familiares; busca de mulheres e meninas que estão em prostíbulos; e aparecimento das mais de 600 mulheres e meninas desaparecidas.


As organizações manifestantes ainda pedem justiça para o caso de Mairel Mora, dominicana assassinada no mês passado em Olavarria, Buenos Aires, onde exercia a prostituição. "Pedimos justiça por Mairel Mora, assassinada a golpes em Olavarria com a cumplicidade das redes de tráfico que exploram e traficam mulheres dominicanas para a prostituição", demandam.


Da mesma forma, solicitam que se outorgue a tutela da filha de Dana Pecci à avó da criança, Adriana Gordó. Dana também foi vítima de sequestro e assassinato em Olavarria. "Por que as cumplicidades ao redor do assassinato de Dana Josefina Pecci? Por que a justiça de Olavarria não outorga a Adriana Gordo, mãe de Dana Pecci, a tutela de sua neta?", questionam.


Para mais informações, acesse: http://www.lacasadelencuentro.com.ar/


* Jornalista da Adital

29 de dez. de 2010

Violência contra Mulheres:
Depoimentos e Histórias Registradas

[Foto Real- Impunidade e terror fizeram das mulheres as maiores vítimas em Santa Teresa-RJ]

"Eu acho que violência contra a mulher é o que aconteceu comigo e que acontece com outras mulheres. Se ele fosse um estranho, eu até que não estava tão revoltada, mas foi meu pai, ele não me respeitou em momento algum. Ele não me considerou como filha. Outro caso de violência é o espancamento. Além disso, eu acho que tem muito homem que tira a privacidade da mulher e pra mim isso já é uma violência. Eles fazem isso com as mulheres porque eles acham que são homens e podem tudo. Eles não vêem que se não fosse a mulher eles não estariam no mundo. Eles não olham essa parte não. Eles não, a maioria". (Gabriela sofreu abuso sexual, físico e psicológico por parte do pai, dos sete aos 13 anos de idade. Conseguiu sair de casa aos 14 com apoio de um serviço de saúde.

"Eu acho que existe violência de todo tipo. Acho que existe a discriminação muitas vezes, sabe? De você ser taxada como menos capaz. Existe aquela de casa, do marido, das mulheres que não têm um grau de instrução melhor, das mulheres que não trabalham, das mulheres que ficam em casa cuidando dos filhos. Do marido que bate, que aparece com outras na cara delas e elas não podem dizer nada porque são sustentadas por eles. E eles acham que a mulher está alí para servir de qualquer coisa, entendeu? Que eles podem falar qualquer coisa: que ela é isso, que ela é aquilo e que a mulher não pode fazer nada, entendeu? Eu acho que, por ser mulher, você ainda não pode sair sozinha. Eu estava conversando com um amigo meu, num bar, e duas mulheres estavam tomando umas cervejas, e ele disse: _olha lá: duas mulheres sozinhas numa mesa, estão esperando homem! Eu falei: qual é o problema de duas mulheres, numa sexta-feira à noite, estarem sentadas num bar? São duas amigas, tomando uma cerveja". Ele respondeu: _ que nada, quando você vê duas mulheres sozinhas, numa mesa, é porque tão esperando algum macho, alguma coisa desse tipo! Eu disse: menino! Como tu és machista, pelo amor de Deus! Quer dizer que um homem sentar numa mesa de bar sozinho é normal, mas a mulher, não? Ele respondeu: Não!
A HISTÓRIA DE SÔNIA
Final de ano. Sônia, 16 anos, voltava do colégio onde fez a matrícula para ingressar no segundo grau. Esperava para atravessar a rua. Um carro parou subitamente. O motorista abriu a porta e a puxou para dentro. Ameaçando-a com uma arma e dirigindo em alta velocidade, ele seguiu para uma mata afastada da cidade. Sexo oral, vaginal, uma, duas vezes. Calada, ela pensava em sua mãe e chorava. _Se você contar a alguém o que se passou, você e sua família morrem. Sônia foi para casa. Lavou-se à exaustão. Sentia-se suja. Tinha nojo de sí . Vomitou muito. Chorou em silêncio e ficou em casa vários dias. Conversou com uma amiga. Não queria incomodar sua mãe, recém-separada do marido, alcoolista, que lhe batia. A filha não queria lhe dar mais uma tristeza. Duas semanas após ela teve um pequeno sangramento e achou que era a menstruação. Quis esquecer tudo. Três meses depois, uma vizinha disse para sua mãe: _Tu não estás vendo que tua filha está grávida? A mãe foi procurá-la e perguntou: _Quem foi? Porque você me enganou? Por que você não me disse nada? Foi difícil convencer a mãe do que acontecera. Em companhia de uma prima, Sônia procurou um grupo de mulheres de sua comunidade e pediu orientação. Pouco se podia fazer, não havia serviços de atenção a vítimas de violência naquela cidade. _ Se eu tenho esse filho, lá no bairro vão dizer que eu sou uma prostituta. Se eu digo que foi estupro ninguém acredita. Nem minha mãe acreditou em mim! Sem acesso a um serviço de saúde que a atendesse dignamente, ela procurou o aborto clandestino e foi atendida num consultório sem as mínimas condições de segurança, expondo-se aos riscos da mortalidade materna porque a rede pública de saúde ainda não oferecia os serviços que poderiam garantir a Sônia o exercício de seus direitos.
JOSEFA E SEU COMPANHEIRO
Josefa voltava para casa com a filha adolescente, quando foi atacada por três homens. Reagiu, lutou contra e gritou: Corra minha filha! A menina conseguiu fugir. Josefa foi estuprada. Engravidou. Ao descobrir a gestação, ela conversou com o marido. Sentia muita tristeza. Raiva daqueles homens. Culpa de não ter conseguido se defender direito, de ter passado naquele lugar. Lembrava da filha e agradecia a Deus por não ter acontecido coisa pior. Ela não queria esse filho, mas não tinha coragem de abortar. Sua religião condenava o aborto. O marido lhe disse que aceitaria o filho como seu. Josefa sentiu-se apoiada, mas queria ser atendida num serviço de saúde. Mesmo com apoio do marido e tendo decidido ter o filho, a rejeição pela gravidez continuava. Ela procurava uma psicóloga que lhe ajudasse a enfrentar aquela situação. Josefa encontrou quem lhe atendesse? Não se tem a resposta.
COM ROSALI FOI ASSIM
Rosali tinha 17 anos. Assistia televisão em casa, num bairro da periferia de uma grande cidade, quando decidiu sair para comprar um sanduiche. No caminho, foi interceptada por dois homens e estuprada sob ameaça de uma arma. Assustada, voltou para casa e em companhia da mãe foi à delegacia. Dalí, as duas seguiram ao hospital. Na emergência, recebeu cuidados ginecológicos inadequados para uma situação de violência sexual (ducha vaginal). Dois meses depois ela descobre a gravidez e recorre ao serviço que lhe atendeu na ocasião do estupro. Ninguém sabia o que fazer. A mãe, segura de seus direitos procurou as autoridades. Ela dizia: _ Alguém precisa fazer alguma coisa, essa menina não pode continuar grávida. Ela não procurou isso. Rosali cabisbaixa, apenas chorava. Três meses após a interrupção de gravidez, realizada numa maternidade pública de referência para vítimas de violência sexual, a adolescente deu notícias para quem lhe atendeu: _ Oi doutora, aqui é Rosali, a menina do estupro. Liguei para dizer que estou bem. Arranjei um emprego e voltei a estudar. A vida de Rosali retomava seu curso.
ADÉLIA
Adélia está só em casa. Chega um rapaz à sua residência, pergunta por seus familiares e pede um copo d'água. Adélia dirige-se à cozinha e é seguida. Com uma faca no pescoço ela é estuprada e ameaçada de morte caso revele o fato a alguém. Adélia permanece em silêncio até descobrir que está grávida. Sente medo e vergonha.
Conta tudo à sua mãe e não recebe a acolhida esperada. Ela não lhe dá crédito e tampouco a aconselha a prestar queixa ou tomar qualquer outra atitude. Adélia acredita que a falta de informação leva sua mãe a agir dessa maneira.
Por iniciativa própria, ela procura a Delegacia da Mulher também esperando um atendimento especial, mas o serviço está em greve. A delegada ausente. Dias depois Adélia consegue ser atendida por ela, afirma que conhece seus direitos e quer realizar um aborto. Sem nenhum tipo de orientação é encaminhada ao IML. É mal recebida pela recepcionista e questionada sobre a demora em prestar queixa. Faz o exame de corpo de delito com uma médica que lhe trata de "forma mecânica". Depois de longa espera para liberação do laudo, Adélia volta a falar com a Delegada. Ao ser inquirida por Adélia sobre em que maternidade poderia interromper a gravidez, "agressivamente" a delegada lhe responde: "eu não posso dizer isso não, você se vire".
Sem saber onde fazer o aborto, Adélia procura médicos de sua relação pessoal que lhe indicam um serviço de referência. Neste local ela é atendida por um médico e uma enfermeira - cordiais e gentis, pois, segundo percebe, eles estão acostumados a realizar este tipo de procedimento. Em seguida, Adélia é acompanhada pelo serviço social e orientada sobre o direito de realizar o aborto de forma segura.
Durante a internação e realização do aborto Adélia fica só. Nesse momento sente a indiferença de alguns profissionais de saúde que não fazem parte da equipe sensibilizada e treinada para atender vítimas de violência sexual. Uma auxiliar de enfermagem tenta convencê-la a não fazer o aborto dizendo que isso é contra a lei de Deus; que conhece muitas mulheres estupradas que tiveram seus filhos, hoje, considerados bons filhos. Adélia espera uma atitude imparcial e reage: "vocês deviam ser pessoas neutras, porque este não é um problema de vocês, isso é um problema meu, que eu estou tentando resolver... O aborto ocorre durante a noite. Ao término do tratamento, sente-se aliviada. Segura da decisão que havia tomado, ela esperava um acompanhamento diferente dos serviços por onde passou.
SUELENE
Suelene foi abusada sexualmente pelo pai durante um ano. Ameaçada com uma faca, ela era obrigada a manter relações sexuais. Sentia-se muito mal, mas com medo ela nada contava para sua mãe.
Com a gravidez a mãe descobre o que está acontecendo e juntas vão ao Conselho de Proteção aos Direitos da Criança e Adolescente e à delegacia e ao IML onde foi feito o exame de corpo de delito. O agressor foi preso imediatamente.
É encaminhada para tratamento no hospital de referência, sendo atendida por uma equipe com assistente social, psicóloga e médicos.
A mãe e uma tia lhe dão apoio durante a denúncia e todo acompanhamento de saúde. Em todos os serviços ela afirma ter recebido um ótimo atendimento, compreensão, apoio e força para superar o que estava acontecendo.
Ela decide abortar, porque mesmo considerando o aborto uma agressão para a mulher, não suporta a idéia de ter um filho do próprio pai.
Suelene conhecia a lei que permite a interrupção da gravidez por estupro porque assistiu a uma entrevista na televisão onde o assunto foi tratado. Mas, pra ela não foi uma decisão fácil. "Se a gravidez fosse de um namorado eu enfrentaria com unhas e dentes, mesmo sem ajuda do pai eu não abortaria".
Após o aborto e o fim do tratamento clínico Suelene sente muito bem. Para ela é importante ter feito tudo dentro da legalidade, "tudo na justiça" e "ele estar preso".
Fazer o aborto num serviço público lhe dá a certeza de que não ficaria com problema nem correria risco de vida. Ela diz conhecer casos de aborto, feitos "no silêncio" onde as meninas ficam doentes e até morrem.
Ao sair do hospital Suelene tem medo das críticas, mas acredita que o mais importante é o que ela pensa e não a opinião dos outros. Durante o depoimento ela afirma sentir muito ódio pelo pai. Mas o apoio familiar e das instituições públicas parece ter sido - ou estar sendo - fundamental para a superar os problemas associados ao abuso sexual.

ANA LÚCIA
Ana Lúcia foi abordada por um rapaz, num ponto de ônibus. Ele lhe chamava insistentemente a Ana, com medo de falar com desconhecidos, seguia adiante. O rapaz aproximou-se perguntando se ela queria trabalhar como recepcionista recebendo dois salários mínimos. Recusando a oferta, Ana disse-lhe que estava apressada e precisava ir embora. Nesse momento, ele passou a ameaçá-la de morte caso gritasse, disse estar com um revólver cheio de bala que poderia descarregar em cima dela. Poderia até obrigá-la a fazer sexo oral, anal e vaginal na frente de todos, pois não tinha nada a perder e até matá-la alí mesmo. Vendo-se sem saída "eu não tive outra opção" Ana Lúcia o acompanhou "olhando só para ele para ninguém desconfiar de nada" como lhe foi exigido. Ele conversava e sorria, e seguiram andando normalmente como se fossem amigos.
Ana Lúcia é estuprada num matagal próximo à delegacia. Durante o ato, o agressor faz comentários sobre si mesmo e sua vítima. Revela que saiu do presídio recentemente, onde estava por ter assassinado o responsável pela morte de seu irmão. Faz elogios e comentários agressivos sobre sua vítima: "você é muito ignorante, mas é bonita". Ela chora e lhe pede pelo amor de Deus que pare de lhe tocar. Ele irrita-se, diz não agüentar mais ouvir esse nome, "pare com esse chororô" isso "é o que mais se ouve lá no presídio". Diz não saber porque estava fazendo aquilo com ela, só sabia que não ia parar porque estava bom. Pergunta se ela tem dinheiro. Lhe pede uma foto de lembrança, aponta para a casa onde mora. Recomenda que ela vá embora sem olhar para trás e não o denuncie, senão ele rodará os quatro cantos do mundo para encontrá-la e matá-la junto toda a família.
Após a agressão, com medo de contrair HIV, Ana Lúcia dirigiu-se à Casa da Cidadania para pedir auxílio. Acompanhada por uma assistente social, ela foi ao Departamento de Proteção da Criança e do Adolescente, mas pode ser atendida porque era maior de 18 anos. Prestou queixa na delegacia, fez o exame no IML e foi encaminhada para o serviço de saúde de referência.
Ana Lúcia considera que recebeu um bom atendimento em todos os serviços por onde passou, mas acredita que foi assim porque a assistente social esteve ao seu lado todo o tempo. Ela recomenda que os serviços sejam mais ágeis e ressalta a necessidade de haver profissionais especializados para atender as pessoas vítimas de violência "porque uma pessoa assim precisa de muita atenção". Ela ressalta a importância do médico ter sido atencioso, ter ficado preocupado por ela estar em período fértil, ter tomado as providências com rapidez.
CRISTINE
Ao nascer, Cristine não foi aceita pelo pai sendo criada pela avó materna. Ele queria que o primeiro filho fosse homem. Quando completou sete anos, sonhando conviver com seu pai, mãe e irmãos ela foi morar com os pais. Logo de início ele a proibiu de fica no mesmo quarto dos irmãos e colocou-a para dormir na sala.
À noite, com todos dormindo ela passa a ir até onde Cristine dorme. Toca-lhe o corpo, alisa seu peito e ao perceber seu choro a ameaça. Coloca um revólver do seu lado e avisa que se contar a alguém ela morre. Cristine é abusada dos sete aos treze anos. O pai faz um buraco na parede do banheiro para lhe observar durante o banho. Ele lhe diz que ninguém pode com ele, que "aqui na terra ele pode mais que Deus. O medo "me fraquejava". Ela temia não ser mais virgem.
Cristine sente-se uma escrava em sua casa. É tratada de modo diferente dos irmãos, realiza todas as tarefas domésticas e não entende o motivo. Acha-se rejeitada e perseguida pelos pais. Apanha com chicote, leva murros do pai e surras da mãe.
Num dado momento decide contar para a irmã e uma prima o que acontece durante a noite. A prima lhe aconselha falar com a mãe. Esta, não acredita, ou melhor diz que ela deve estar dando motivo para isso acontecer e passa a ameaçá-la. Sempre que fazia algo errado ou deixa alguma tarefa doméstica sem realizar, a mãe avisa que vai contar ao marido o que ela lhe contou. "Ela usava isso pra cima de mim como se fosse uma arma". Cristine sente-se vigiada. Não pode sair só de casa nem conversar com ninguém, um dos pais está sempre por perto. Ela não sabe a quem pedir ajuda.
Até que, num certo dia, conversando com uma funcionária da biblioteca da escola onde estuda, Cristine relata sua história e é levada a um serviço de saúde de referência. Faz exame clínico e ginecológico, acompanhamento psicológico e é apoiada na processo de saída de casa. Ela vai morar com um primo que solicita sua guarda à justiça e denuncia o pai.
O delegado quer provas para prendê-lo e lhe sugere: "você deixa seu pai lhe espancar... e depois que ele lhe espancar bem muito você corre pra cá!". Ela lhe faz uma contra-proposta: abrir uma sindicância no local onde ela reside para investigar quem ele é. Após prestar queixa ela faz o exame de corpo de delito. Fica aliviada por ainda ser virgem.
Os pais de Cristine continuaram ameaçando-a por longo tempo, acusaram-na de prostituição, de levantar falso testemunho e não foram punidos pelos crimes que cometeram.
Sobre os serviços, Cristine avalia muito bem o setor saúde. Ela teve todo acompanhamento necessário, compreensão e apoio. Mas, para ela, os setores que poderiam impedir que ela continuasse sendo agredida pelo pai não atuaram de modo adequado. Lentos e inoperantes na resolução de seu problema, ela sugere à delegacia, ao IML e à Procuradoria que sejam mais eficientes no cumprimento de suas responsabilidades.
ADELINA
Adelina voltava de uma festa, com uma amiga e o marido. No caminho de casa, eles foram abordados por três rapazes armados de revólver. Era um assalto. O marido da amiga foi imobilizado e sua mulher ameaçada de morte. Adelina foi espancada pelo assaltante que percebeu sua tentativa de esconder alguns pertences. Ele lhe puxou pelos cabelos, lhe deu murros, coronhadas de revólver e atirou duas vezes bem próximo de seus ouvidos. Em meio a todas essas agressões ele a empurrou para o lado de uma barraca que havia na calçada, um local mais escuro, e a estuprou. Um segundo assaltante aproximou-se também para violentá-la e lhe mordeu os seios.
Com medo de alguma doença, com medo da Aids, sentindo muitas dores, nojo e raiva dos agressores, Adelina teve medo também de chegar em casa naquelas condições e ser responsabilizada pelo marido, do que ocorrera. Foi até a casa de sua mãe e não conseguiu acordá-la. Decidiu dormir na casa da amiga.
No dia seguinte foram a um hospital onde foi examinada (mas não medicada) e encaminhada ao serviço de referência. Era domingo, não havia pessoal preparado para atendê-la. Ela não foi examinada, nem recebeu qualquer orientação. Oportunidade perdida. Pediram-lhe que retornasse no dia seguinte. Voltou ao serviço dois dias depois por insistência do marido. "Você vá. Você não conhece esses maus elementos, não sabe o que eles têm, é melhor fazer um exame, senão eu não quero nada com você não". Nessa consulta foram tomadas as providências para anticoncepção de emergência e profilaxia de doenças sexualmente transmissíveis e iniciado o acompanhamento psicológico.
A demora na entrega dos exames é a única queixa de Adelina em relação aos serviços de saúde. O atendimento da equipe especializada foi considerado muito bom. Sentiu-se protegida. Recomenda apenas mais agilidade nos resultados dos exames.
O marido de Adelina, de fato só acreditou que a mulher foi agredida depois da confirmação médica e só passou a ajudá-la depois de conversar com a psicóloga. Até então, ele acreditava que ela era a culpada e ameaçou-a com a separação caso o teste anti-HIV fosse positivo.
Ao deixar o hospital, Adelina procurou a amiga para prestar queixa, porque ela havia reconhecido um dos agressores pela voz. A amiga, recusou-se a testemunhar e se Adelina quisesse que prestasse queixa sozinha, esquecesse que estava acompanhada .
Com medo de uma possível vingança, Adelina desistiu de denunciar os assaltantes. Não obstante, dois foram presos ao assaltar e ferir um policial. Um deles tinha uma tatuagem no braço. O pai de Adelina fez o reconhecimento na delegacia a partir de suas informações.
Adelina mudou de opinião frente ao problema da violência sexual. Para ela isso não existia, as mulheres que diziam ter sofrido estupro estavam inventando e por isso não mostravam a cara quando falavam na televisão. Agora não. Ele entende os motivos que uma mulher tem para não querer mostrar o rosto nem falar do assunto depois de agredidas sexualmente. Mesmo assim, ela recomenda as mulheres vítimas de violência denunciem os agressores

21 de dez. de 2010

Pai descobre estupro da filha pela Internet


O comerciante Darlan Costa, 19 anos, e dois adolescentes de 17 anos são procurados pela polícia de Itanhém, a 980 km de Salvador. Eles são acusados de terem estuprado uma menina de 13 anos no mês passado e divulgado as fotos pela Internet. O caso foi descoberto na semana passada pelo pai da garota, que mora nos Estados Unidos. Ele recebeu por e-mail 54 fotos do estupro supostamente cometido pelos três jovens. A menina aparece desacordada nas imagens. Ao saber do caso, a família da adolescente, que mora em Itanhém, procurou a polícia. A menina contou em depoimento ao delegado José Nele Araújo, da 8ª Coordenadoria de Polícia do Interior, com sede em Teixeira de Freitas, que saiu de casa para tomar um sorvete. Ela teria encontrado um colega que a convenceu a ir até a casa de outro jovem. Segundo ela, os três ficaram conversando por algum tempo na frente de uma casa. A menina pediu um pouco de água e, ao entrar na residência, teria sido obrigada a ingerir bebida alcoólica e cheirar um produto que estava em uma garrafa plástica. Ela contou que, após ter inalado o produto, acabou desmaiando e acordou apenas no outro dia, já em sua casa. A adolescente acrescentou em seu depoimento que, ao acordar, sentia fortes dores de cabeça e na região genital. Ela não contou o crime para a família, que ficou sabendo do estupro somente depois que o pai recebeu as fotos pela Internet. O delegado espera que a prisão preventiva do comerciante e a apreensão dos jovens sejam decretadas hoje à tarde. Ontem, os três acusados foram procurados pela polícia para prestar depoimento, mas não foram encontrados. Há suspeitas de que eles tenham deixado a cidade.
Direitos Humanos e gênero no cenário da migração e do tráfico internacional de pessoas.



Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude. Este texto foi produzido pela equipe do Posto de Atendimento Humanizado aos/às Migrantes: Dalila Eugênia Maranhão Dias Figueiredo, Débora Donadel, Elizângela André dos Santos, Marina Gurgel Neves e Marly Françoso. asbradguarulhos@terra.com.br

RESUMO
Este texto presenta algunas observaciones sobre la violación a los derechos humanos que han tenido lugar en la migración internacional y en el tráfico de personas a partir de los relatos de mujeres migrantes abordadas por el equipo del departamento de atención humanitaria a los/las migrantes, en el aeropuerto internacional de Guarulhos. La presentación de estos casos muestra la violación de derechos en este contexto y la importancia de discutir el enfrentamiento al tráfico de personas a partir de una perspectiva de género y de derechos humanos.
Palabras clave: Trafico de personas, migración, genero, mujeres.

ABSTRACT
This paper presents some comments about violations of human rights taking place in international migration and human trafficking from the reports of migrant women gathered by the team of the Posto de Atendimento Humanizado aos/às Migrantes, in the International Airport of Guarulhos. The presentation of these cases shows the violation of rights in that context and the importance of discussing the confrontation with Trafficking in Persons from a perspective of gender and Human Rights.
Key words: Trafficking in Persons, Migration, Gender, Women.

Apresentação
O presente texto descreve violações dos direitos humanos a partir de narrativas de mulheres migrantes abordadas pela equipe do Posto de Atendimento Humanizado aos/às Migrantes, que desde dezembro de 2006 atende brasileiros/as que retornam ao Brasil, via Aeroporto internacional de Guarulhos, como deportados/as e inadmitidos/as.1 Esse Posto foi criado a partir da experiência de atendimento voluntário a vítimas do tráfico de pessoas, iniciada em 1999 pela Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude (Asbrad). O serviço ganhou contornos mais concretos a partir do resultado de duas pesquisas realizadas, respectivamente, em 2005 e 20062, numa parceria entre a Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça, o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). As duas investigações buscaram apreender indícios da existência de vítimas do tráfico de pessoas entre os brasileiros e brasileiras que retornavam ao país via aeroporto de Guarulhos na condição de deportados/as ou não-admitidos/as. No final de 2006, graças ao apoio financeiro da Cordaid3 - organização humanitária holandesa, do apoio institucional do Ministério da Justiça e do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) - foi possível colocar em funcionamento o serviço mediante a execução de um projeto piloto. Através do trabalho de identificação e apoio a vítimas desse tipo de tráfico, o objetivo desse projeto foi elaborar uma metodologia de atendimento para essas pessoas, especialmente mulheres vulneráveis ao tráfico ou traficadas. O Posto de Atendimento Humanizado aos/às Migrantes tem como objetivo contribuir para um atendimento humanizado e efetivo a essas pessoas, com especial atenção para as possíveis4 vítimas de Tráfico de Pessoas. O caráter humanizado do serviço reflete a adoção do paradigma de promoção dos direitos humanos, os princípios do Protocolo de Palermo e a experiência acumulada da Asbrad na temática de violência de gênero, possibilitando, assim, uma abordagem singular e diferenciada em um local onde os temas migração e tráfico de pessoas se encontram - Aeroporto Internacional de Guarulhos. O trabalho de acolhimento, apoio e orientação, na área de acesso restrito, foi realizado pela equipe multidisciplinar da Asbrad. O público-alvo da abordagem são mulheres e "trans"5 que retornam ao Brasil como deportadas e inadmitidas. No caso das mulheres, a maioria vem em vôos originários da Espanha, Estados Unidos, Inglaterra e Portugal. Na dinâmica do Aeroporto, as pessoas inadmitadas e deportadas são separadas dos demais passageiros, enquanto seus documentos são verificados pela Polícia Federal. Durante a espera pela liberação, elas são abordadas pela equipe do Posto, que se apresenta como uma organização não governamental de Direitos Humanos e pergunta sobre o tratamento dispensado a elas no exterior. A partir desse contato - respeitando sempre o consentimento da atendida -, inicia-se um diálogo, origem dos relatos aqui apresentados. Acolher, apoiar e orientar na maior fronteira aérea brasileira não é tarefa simples, considerando que o aeroporto é visto como um lugar de mínima permanência possível, um local de passagem. No entanto, apesar dessa dificuldade, são muitas as pessoas deportadas e inadmitidas que querem contar suas histórias, que mencionam superações, sonhos ainda não realizados e também direitos violados. Essas violações de direitos estão associadas não apenas à condição de migrantes, mas, principalmente, a estereótipos relacionados com país de origem, gênero, orientação sexual e ocupação. O trabalho realizado pelo Posto de Atendimento Humanizado aos/às Migrantes não tem caráter de pesquisa. Trata-se de uma experiência pioneira que contribui para uma reflexão sobre a legislação brasileira, o Protocolo de Palermo e a autonomia das mulheres migrantes, ampliando a discussão dos temas tráfico de pessoas e gênero. No primeiro ano de atuação do Posto de Atendimento Humanizado aos/às Migrantes, o Posto abordou 2088 pessoas, 800 mulheres, 41 "trans". Foram abordadas 63 pessoas que apresentaram indícios de tráfico de pessoas, sendo 42 mulheres e 16 "trans". Para a elaboração deste texto foram escolhidos relatos de diversas mulheres deportadas e não admitidas atendidas, entre eles, quatro casos que mostram indícios de tráfico de pessoas. O conjunto de narrativas remete a diferentes violações de direitos humanos. A apresentação desses casos evidencia a ausência de um "modelo de vítima" e mostra a importância de discutir o enfrentamento ao Tráfico de Pessoas a partir de uma perspectiva de Direitos Humanos que considere as mulheres como sujeitos atuantes, auto-determinados e posicionados de maneira diferente, capazes não só de negociar e concordar, mas também de conscientemente opor-se e transformar relações de poder, estejam estas enraizadas nas instituições de escravidão, prostituição, casamento, lar ou mercado de trabalho (Kempadoo, 2005:61-62).

2. Discriminação e controle migratório

A discriminação de gênero no país de destino aparece com freqüência nas narrativas das mulheres deportadas e inadmitidas, que dizem terem sido tratadas como prostitutas e por isso discriminadas, não só por funcionários de migração, mas também pelos cidadãos estrangeiros. No caso das pessoas inadmitidas, percebe-se a ausência de critérios para o impedimento de entrada no país de destino, o que abre brechas para o abuso de autoridade e ações discriminatórias. É freqüente, por exemplo, a recepção de pessoas que foram inadmitidas por portarem pouco dinheiro. O argumento da polícia migratória estrangeira, principalmente a de países europeus, é que a pessoa sem dinheiro torna-se "vulnerável". Assim, a devolução dessas pessoas ao país de origem teria o caráter de "proteção" ao viajante. No entanto, nos relatos das pessoas abordadas, essas ações aparecem como controle migratório. Para a polícia de fronteira, quem não tem recursos financeiros é um/a possível migrante irregular e por isso será inadmitido/a. No caso das mulheres, além de migrante irregular, é corrente a idéia de que elas buscariam na indústria do sexo uma maneira de se manter no país de destino. Uma das mulheres inadmitidas disse que os policiais no aeroporto de Milão insinuaram o tempo todo que ela estava indo para se prostituir (Relatório, 21 de fevereiro de 2007). A inadmitida em Madri, 49 anos, de Joinville/SC, não entrou porque os policiais questionaram o fato de ela ser casada (e com 3 filhos) e buscar hospedagem na casa de um amigo do marido em Barcelona. Professora universitária, de classe média, estava muito chateada. Disse que sofreu revista íntima, (por mulheres), e que entendia as piadinhas que os policiais faziam (...) dando a entender que era mais uma prostituta (Relatório, 07 de março de 2007). mulher (...)51 anos, natural de Inhumas - GO, inadmitida em Londres, via Madrid (...) Foi com o neto e com a amiga (...) visitar a filha, que é imigrante irregular. Por medo de que a descobrissem, não quiseram chamá-la no aeroporto. Me mostrou o papel da polícia londrina que dizia que o motivo da deportação era a intenção de realizar práticas não consideradas legais pelas leis migratórias, sem especificar quais práticas seriam essas. Disseram que o motivo da deportação era o fato de não apresentar reserva de hotel (...) [Disse para a atendente] "como poderia fazer prostituição se já não sou mais mocinha?", pois a sensação que tinha era a de que haviam evitado sua entrada em Londres por isso (Relatório, 02 de fevereiro de 2007). Contou que um policial insinuou que ela iria se prostituir em Londres."Falei para o intérprete dizer ao policial que me visitasse quando fosse o Brasil para ver que sou mulher decente". Disse que o policial ficou constrangido e pediu desculpas, mas não desistiu da inadmissão (Relatório, 16 de maio de 2007). São relatos de mulheres que, em última instância, foram inadmitidas por terem sido consideradas prostitutas. O discurso antitráfico6 que relaciona tráfico de pessoas à prostituição fortalece tais ações antimigratórias e xenofóbicas.

3.Migração e gênero

O enfrentamento ao tráfico de pessoas não pode ignorar as razões para migrar e as necessidades e desejos das pessoas de deixarem seus países para melhorar de vida, mesmo que isso envolva ser contrabandeado e trabalhar em condições deploráveis no comércio sexual. Isso conduz a fugir do problema da atuação e autodeterminação dos migrantes e leva, portanto, a métodos e estratégias não adequados às necessidades deles (Kempadoo, 2005:69). É preciso compreender as motivações das mulheres que decidem migrar para a criação de uma política efetiva de proteção à mulher migrante, que não impeça seu desejo de migrar e que propicie auxílio a suas reais necessidades. A busca por melhores condições de vida, mesmo enfrentando incertezas, é recorrente nas narrativas das migrantes. São relatos de mulheres que aparecem como sujeitos autônomos em busca de melhores condições de vida para si e para sua família (Lisboa, 2006:151-152). A maioria das mulheres atendidas viajava sem a certeza de conseguir um emprego, formal ou informal, no país de destino, contando apenas com algum parente ou amigo que, possivelmente, poderia lhe arrumar um emprego no país de destino. Elas relatam ter se ocupado em atividades de limpeza (como diarista em casas particulares, hotéis e restaurantes), cuidando de crianças e idosos, trabalhando na agricultura, no comércio, como dançarinas ou envolvidas na indústria do sexo. As motivações para migrar, porém, não se reduzem a causas sócio-econômicas. Os relatos de três mulheres que tiveram a experiência de migrar e retornaram ao Brasil como deportadas e inadmitidas mostram a importância das dimensões subjetivas. Ao narrar suas histórias de vida, apontam para diferentes motivações para a migração, desde o desejo de não mais morar na zona rural até a fuga de um marido ou um pai violento. mulher, 32 anos, natural de Goiânia-GO, deportada da Espanha, onde morava há 2 anos. Estava nervosa, passando mal e não queria falar. Pediu ajuda no preenchimento da ficha da PF7, mas disse que não tinha "nada a declarar" como objetivo da viagem. Falava com a mão sobre a boca e estava assustada. Disse que preferia aguardar um vôo que saísse só no dia seguinte, de Guarulhos, a ter que pegar um ônibus para o outro aeroporto. "Aqui é muito perigoso, eu sei". Tentamos acalmá-la. Falou que a mãe mora em (...) uma fazenda e ela não queria morar em fazenda. Por isso foi para Goiânia e depois para a Espanha (...) (Relatório, 17 de abril de 2007). mulher, 45 anos, (...) deportada de Copenhagen-Dinamarca. Contou que mora com a filha e o neto em Copenhagen há mais de 3 anos. (...) Disse que precisava vir ao Brasil para finalizar seu divórcio pois tinha a intenção de casar-se com um dinamarquês ainda este ano. Falou também que precisava voltar para apaziguar a relação entre o filho e o ex-marido, que voltaram a morar juntos. O ex-marido a espancava e o filho presenciava. Mostrou marcas de ferimentos que ainda estão em seu corpo. Foi vítima de violência doméstica por muitos anos. (...) (Relatório, 16 de maio de 2007). Na narrativa a seguir, de uma brasileira inadmitida em Lisboa, aparece uma série de situações violentas - a figura de um pai violento, um namorado pedófilo e uma cidade preconceituosa - que, desde a infância, estimulou seus deslocamentos. Seu desejo de continuar migrando está relacionado também à imagem que os moradores da pequena cidade, da qual é originária, faz da mulher migrante. mulher, 28 anos, natural do estado do Pará, inadmitida em Lisboa. Chegou revoltada, dizendo que havia sido tratada como traficante de drogas e que havia sido revistada por policiais para saber se levava drogas no corpo. Perguntei se tais policiais eram mulheres, disse que sim. Contou que apanhava de seu pai quando criança e por isso saiu de casa aos 12 anos.(...). Contou que já havia morado na França e na Guiana Francesa e que nunca havia tido problemas. Um pouco depois, contou que havia sido deportada para Belém da Guiana. (...) Falei abertamente sobre tráfico de pessoas e ela disse que não havia passado por isso. Contou que quando morava na Guiana, conheceu um espanhol que a levou para morar na França. Ficou lá 2 anos, morando com a filha, então com 7 anos. Quando estava prestes a se casar "só para pegar os papéis, porque eu não gostava dele", descobriu que ele era pedófilo e se masturbava vendo a criança. Fugiu e disse que foi jurada de morte. Hoje a menina mora com a tia, no Pará. Ela me disse, chorando, que queria sair de lá com a filha, pois "a cidade acha que só porque eu ganhei alguma coisa, eu sou traficante ou prostituta". Não queria que a filha passasse por esse constrangimento. (...) Ao contatar a família, descobriu que seu ex-marido estava querendo a guarda de sua filha (Relatório, 04 de setembro de 2007). Uma vez no exterior, em certos países, essas migrantes não se livram do fantasma da prostituição: Disse que as brasileiras em Portugal são vistas como prostitutas, sem exceção. Contou ter sido abordada várias vezes por europeus convidando-a para fazer programas, mas recusou todas as ofertas. Segundo ela, alguns desses convites foram realizados na presença do marido, que ficou muito constrangido. Lá em Portugal, um grupo de jovens que estava em um carro gritou em pleno centro comercial da cidade: "brasileira, puta!". Ela disse que as pessoas próximas imediatamente se voltaram para a direção em que estava, fuzilando olhares de reprovação (Relatório, 27 de março de 2007). Percebendo essa dinâmica excludente, algumas mulheres dizem sentirem-se mais seguras quando não apresentam as características atribuídas ao estereótipo da mulher brasileira. O relato de uma mulher de 33 anos, deportada da Suíça, que se percebe distante desse estereótipo, exemplifica esse ponto. (...) Chegou revoltada, chorando e mal dizendo o Brasil. Queria poder nunca mais voltar. (...) Já havia morado na Espanha, na Itália e na França. Estava há 11 anos na Europa. Foi pega na estação de trem, quando voltava para casa. Trabalhava com instalação elétrica. (...) Namora um italiano e está com casamento marcado para agosto (...) A primeira vez que foi para a Europa, seu destino era a Espanha. (...) Contou também que na Espanha era freqüentemente confundida com uma cubana. "Diziam que eu não parecia brasileira, porque brasileira tem que ter curvas e ser sexy e eu tenho esse jeito meio machinho. Assim é mais seguro" (Relatório, 04 de setembro de 2007). A situação pode ser mais violenta quando se trata de migrantes irregulares, de fato, envolvidas na indústria do sexo, como no relato a seguir. Foi agredida fisicamente por policiais da imigração espanhola, por ocasião de sua estadia no centro de imigração em Valença/Espanha. Segundo ela, um policial tentou fazer carícias sendo repelido. Como represália ele a espancou usando um cacetete [barra de ferro] desferindo-lhe golpes nas nádegas, com o auxílio de outro policial que a segurou pelos cabelos (Relatório, 09 de março de 2007). Esse relato evoca as afirmações de Kamala Kempadoo (2005:64) sobre a posição ocupada pelas migrantes que trabalham na indústria do sexo. Segundo a autora, a criminalização da prostituição exacerba a violência que as mulheres migrantes experimentam nas mãos de recrutadores, contrabandistas, empregadores, polícia, funcionários da imigração ou carcereiros de centros de detenção, cadeias ou prisões, entre os quais o triplo estigma - criminosa, puta e imigrante - promove intenso desrespeito e tratamento desumano.

 4. Indícios de tráfico em narrativas de mulheres atendidas pelo Posto de Atendimento Humanizado aos/às Migrantes

Os relatos a seguir são de mulheres que apresentaram indícios de tráfico internacional de pessoas, identificados a partir da abordagem da equipe do Posto de Atendimento Humanizado aos/às Migrantes. Cabe ressaltar que o Posto trabalha em consonância com o que preconiza o Protocolo de Palermo. Ao optar pelas diretrizes do Protocolo de Palermo, a equipe do Posto não considera o trabalho na indústria do sexo suficiente para identificar uma pessoa como traficada. Ou seja, não considera a prostituição em si como uma violência contra as mulheres. Como aponta Kempadoo (2005:62) (...) são as condições de vida e de trabalho em que as mulheres podem se encontrar no trabalho do sexo, e a violência e terror que cercam esse trabalho num setor informal ou subterrâneo que são tidos como violadores dos direitos das mulheres e, portanto, considerados como "tráfico". Os quatro casos descritos a seguir diferem entre si e demonstram que os indícios de tráfico não remetem a um modelo idealizado de "vítima de tráfico de pessoas". No primeiro caso, duas mulheres foram enganadas na busca por um marido estrangeiro, com o fim de serem exploradas no trabalho doméstico. Elas chegaram em Amsterdã da mesma forma: entraram num site na procura de marido estrangeiro e acabaram por manter contato com uma mulher que lhes ofereceu emprego. Aceitaram, pegaram dinheiro emprestado com amigos e familiares e foram. Chegando lá não recebiam pelo trabalho feito nas casas, diferente do combinado com a mulher. Ficaram de dois a três meses nessas condições. Quando conseguiram abandonar essa situação, sofreram perseguição da aliciadora até serem deportadas. Uma delas (...) tinha 40 anos e se mostrou bastante disposta a falar (...) não tinha muita consciência da gravidade do que tinha vivido. A outra mulher de 49 anos (...) mostrou-se retraída. Passava o tempo todo afastada, prestando atenção no que a outra dizia e quando fui falar com a mesma posicionou-se com respostas rápidas e curtas (...) (Relatório, 18 de janeiro de 2007). No segundo relato, uma mulher é enganada sobre o trabalho que iria realizar na Suíça. A promessa era um emprego de garçonete, mas chegando à Zurique teve seus documentos retidos e foi obrigada a prostituir-se. Neste caso, a atendida considera ter sofrido abusos e ser vítima de tráfico de pessoas. No entanto, ainda que não se percebesse dessa maneira, sua fala apontava para diversos indícios de que ela tenha sido vítima de tráfico. Há o engano ("...disse que poderia levá-la à Suíça para trabalhar em um restaurante ganhando 5 mil francos por mês"); o cárcere privado; o passaporte retido; a exploração; a dívida e sua manutenção; a coação ("...filho de 8 anos sofrer um seqüestro em sua cidade natal, armado pelas pessoas da quadrilha que a levaram para a Suíça"); o constrangimento (foi mal falada na cidade de origem por não ter pagado a dívida). Apesar desses indícios e da denúncia feita à polícia portuguesa, ela não foi tratada como vítima, sendo deportada após ser denunciada como imigrante irregular.8 Retornou ao Brasil como deportada de Portugal, onde morava há quase um ano e meio. Conforme seu relato, depois de duas semanas sendo explorada sexualmente, conseguiu fugir com a ajuda de um português e fixou-se na Ilha dos Açores. Livre do cárcere privado, voltou a trabalhar "com sexo", pois se sentia na obrigação de enviar dinheiro para o Brasil - onde sua mãe cuidava de seu filho. Contou ainda que a família nunca soube de seu trabalho, nem mesmo do período em que foi traficada. mulher, 30 anos, natural do estado de Goiás, deportada de Lisboa. Morava em Portugal há 1 ano e 5 meses, na Ilha dos Açores, mas quando saiu do Brasil seu destino era Zurique. Perguntei se trabalhava em Portugal e me disse que não fazia nada, tinha um noivo português e iam se casar. (...) contou que havia trabalhado "com sexo" antes, mas que já havia parado. A acompanhei até a esteira de bagagem. Sua mala chegou muito danificada. Fiquei com ela na fila do balcão de reclamações. Nesse momento, me contou que achava que alguém a havia denunciado para a polícia migratória, porque na casa em que estava quando a polícia chegou havia outros brasileiros, no entanto chegaram perguntando por ela. Comentou que achava que poderia ser um antigo cliente, já que usava seu nome verdadeiro quando era trabalhadora sexual, e foi por esse nome que a procuraram. Perguntei se tinha alguém que poderia querer denunciá-la, por exemplo, alguém que a tivesse ajudado a viajar. Ela me disse que foi para a Europa via Suíça com uma mulher de sua cidade natal que trabalhava com tráfico de pessoas. Ela usou exatamente esse termo! E começou a contar sua história (...). A mulher, chamada C., disse que poderia levá-la à Suíça para trabalhar em um restaurante ganhando 5 mil francos por mês. "Isso era muito dinheiro". Chegou em Zurique às 11 da manhã e a C., um português chamado M. e uma mulher romena disseram a ela que descansasse até às 4 da tarde, que depois ela conheceria o restaurante. C. a acordou mais cedo que o combinado e a arrumou. "Eu não entendi porque ela estava me vestindo daquele jeito, mas pensei: 'aqui eles devem trabalhar assim'". Foi levada a uma sala, onde estavam 7 moças "seminuas". Disse que perguntou para C. se ali era mesmo um restaurante: "e ela me contou que não, que ali era uma casa de sobe e desce". Ela foi explorada sexualmente durante 16 dias, antes de fugir para Portugal. Contou que os clientes pagavam 80 Euros por programa e era exatamente esse valor que era cobrado pela diária do quarto que elas usavam. "Para comer, a gente tinha que ficar com mais de um cliente por noite". Disse que até hoje a família não sabe que ela passou por isso, apesar do filho de 8 anos sofrer um seqüestro em sua cidade natal, armado pelas pessoas da quadrilha que a levaram para a Suíça. Comentou depois que a aliciadora andou dizendo em sua cidade natal que ela era caloteira e que não tinha pagado a passagem. A passagem custou 3 mil reais. Quando chegou em Zurique, disseram a ela que a dívida era de 3 mil francos. Ela fugiu sem pagar por nada. "O único dinheiro que eu dei para ela foi uns 500 Euros, para algumas despesas". Ela relatou que quando foi pega pela polícia de imigração, contou sua história e denunciou os traficantes, dando nomes e endereços, mas a polícia portuguesa não acreditou. Ela ficou detida por 3 dias antes de ser deportada, sem ser ouvida como testemunha, nem considerada vítima. (...) ela mostrou vários hematomas nas pernas que, segundo ela, eram resultado dos maus tratos da polícia portuguesa nos 3 dias que ficou detida em um presídio comum (...) Contou sobre sua fuga: descobriu que uma das meninas que estava na "casa de sobe e desce" era sua conterrânea e tinha ido à Zurique enganada, assim como ela. Estava lá fazia 6 meses e não estava ganhando dinheiro nenhum com seu trabalho. Elas decidiram juntar-se para fugir. Contou que certo dia que os "chefes" saíram para beber, ela e a amiga conseguiram pegar de volta seus passaportes. Ficaram alguns dias com o passaporte antes de fugir com a ajuda de um português que as transportou até Portugal em um caminhão. Foi logo depois da fuga que seu filho, de 8 anos de idade, foi seqüestrado na porta da escola. "Eles fizeram isso para me dar um susto, mas eu bati o pé dizendo que não pagaria a passagem e os denunciaria". Disse que a família não queria que ela viajasse, mas quando estava lá começaram a cobrar que ela enviasse dinheiro. Com vergonha de contar o que havia acontecido, continuou na Europa. (...) Namora um português há mais de um ano. Contou que estão com o casamento marcado para final do mês (...). Acrescentou que a tal aliciadora ainda mora em sua cidade natal. Perguntei se essa cidade era grande o suficiente para elas não se encontrarem, e ela disse que não. Expliquei que existia uma rede de proteção à mulher e que os endereços que eu estava passando eram de lugares que poderiam ajudá-la se necessário: caso quisesse continuar a denúncia, por exemplo. Como a família não sabe de sua história e ela imagina que a denúncia a exporia, ela me disse que esperava que a polícia portuguesa resolvesse o caso (...) (Relatório, 03 de abril de 2007). O caso a seguir traz uma situação de aliciamento que aconteceu no país de destino. A atendida viajou para a Espanha a convite de uma amiga, mas não conseguiu arranjar o emprego esperado. Conhece um estrangeiro e é enganada por ele com uma promessa de trabalho doméstico. É levada para a Dinamarca, onde é obrigada a se prostituir, sob a ameaça da família ser morta, caso se negasse. A casa de prostituição onde era mantida foi descoberta pela polícia e ela foi acolhida por uma organização não governamental local. Contou que teve direito de permanência na Dinamarca. "Entretanto, não tinha pleno direito de ir e vir, e não poderia exercer qualquer atividade laboral naquele país, caso contrário teria o direito de permanência suspenso e conseqüentemente seria deportada". Nos dez dias que ficou presa, antes de ser encaminhada à ONG, ela foi obrigada pelos policiais a mudar a cor de seus cabelos, pois "chamava muita atenção". mulher, 27 anos, (...) Trata-se de uma jovem muito bonita, de estatura baixa, loira, e lentes de contato azuis. Desempregada (...) cursou apenas o ensino fundamental (incompleto), foi rejeitada pela mãe natural, tendo sido criada por outra família, (...), cuja situação financeira era muito precária. Na adolescência se encantou por (...) um chefe do tráfico de drogas. Com ele teve 02 filhos - um menino de oito anos de idade e uma menina de 02 anos de idade (...) Ela informou que o chefe do tráfico a sustentava (...) Sem possuir qualificação e estudo não conseguia emprego, por isso decidiu tentar a vida no exterior, se espelhando na tal amiga (bem-sucedida). Com isso estava jurada de morte, não podendo regressar para sua cidade natal e seus filhos ficaram sob os cuidados e guarda da mãe e irmã (...). Disse ter ido à Espanha (Madri) a convite de uma amiga (brasileira) casada com espanhol onde se hospedou. Tentou arrumar um emprego, mas não conseguiu, embora houvesse oferta para a prostituição - que ela descartava. Em um café conheceu um homem de origem árabe, que falava espanhol com quem manteve amizade e vários encontros (...), ele passou a se interessar por seus relatos, declarando-se de família abastada e residente na Dinamarca, a qual poderia empregá-la como doméstica e assim regularizar sua situação na Europa. Ela aceitou a proposta combinando os detalhes da viagem, sendo que ele iria primeiro, a fim de preparar sua chegada; ela foi depois, só, de avião, com a orientação de que no aeroporto uma senhora morena a recepcionaria, como de fato ocorreu. Essa pessoa era brasileira, sem declinar maiores detalhes. Ao chegar no apartamento "dele", o encontrou só, o que causou estranheza. Como desculpa disse que a família havia ido ao mercado fazer compras para recebê-la. O tal sujeito sugeriu que desfizesse suas bagagens, indicando o quarto e pediu seu passaporte e passagens sob o argumento de que os levaria imediatamente à pessoa responsável pelo contrato de trabalho, sendo entregues. Horas depois o tal sujeito retornou com outras pessoas, dizendo o que se tratava e que iria para outro local. Ela se desesperou, mas precisou se conter quando ele pegou o celular e ligou para um número no Brasil - dizendo ter muitos amigos que dariam fim na família, caso ela lhe criasse algum problema. A ameaça surtiu efeito, pois ela temendo pela segurança de seus filhos e família procurou não se rebelar. Com isso foi levada para vários clubs e apartamentos para fazer programas, mas vinculada ao tal sujeito - cafetão - que recebia porcentagens sobre seu faturamento, diferente de outras mulheres (algumas brasileiras) que circulavam livremente, enquanto ela ficava fixa, reclusa, escrava do tal árabe. (...) Perguntei se não saía do local de trabalho, respondendo que sim, para ir ao cabeleireiro, lojas, mercados, já que precisava se cuidar, mas sempre escoltada. Permitiam que enviassem dinheiro à família, algo em torno de R$ 2.000,00 (dois mil reais) ao mês, que serviu para a mãe sustentar os netos e reformar a casa, garantindo um pouco de conforto a eles. Perguntei como foram descobertos, respondendo que a jovem responsável pela segurança se descuidou e os policiais adentraram ao apartamento equipado com circuito de câmeras internas e externas, justamente para terem controle de tudo e todos, (...) foi presa, permanecendo 10 dias no Presídio, aguardando o julgamento. Diante da informação, a interrompi explicando que em razão da existência de uma Lei Internacional (Protocolo) ela tinha o direito de permanecer lá, inclusive com um visto provisório por se tratar de vítima e por ter auxiliado as investigações informando com precisão o que ocorria, inclusive fornecendo nomes e atuações. Ela respondeu que em razão de sua colaboração poderia permanecer na Dinamarca por 03 meses, porém, aos cuidados da ONG dinamarquesa que a acolheu. Entretanto, não tinha pleno direito de ir e vir, e não poderia exercer qualquer atividade laboral naquele país, caso contrário, teria o direito de permanência suspenso e conseqüentemente seria deportada. Ela permaneceu na ONG por 03 semanas e 15 dias (...) Tratava-se de um recâmbio. (...) Quanto à situação na Dinamarca, destaco a informação de que durante o período em que ficou presa, foi obrigada a modificar a tonalidade de seus cabelos, que eram blond - loiríssimos, e que, segundo os policiais, ela chamava muita atenção, sendo tingidos numa tonalidade mais cinza (...) (Relatório, 18 de julho de 2007). Nos casos anteriores, a pessoa atendida não tinha conhecimento de que seria obrigada a se prostituir. Na narrativa a seguir, a mulher atendida já era profissional do sexo no Brasil, mas foi enganada sobre as condições de trabalho que encontraria na Espanha. Relembrando que, para o Protocolo de Palermo, a questão do consentimento da vítima é irrelevante para caracterização do tráfico, uma vez que a vítima pode até ter concordado em trabalhar para a prostituição, mas jamais imaginou que seria escravizada, explorada sexual e economicamente e violada em seus direitos fundamentais (Massula e Melo, 2003:18). O engano não foi sobre o tipo de trabalho que seria realizado, mas sim em relação às condições. Esse atendimento aconteceu a partir da solicitação de uma ONG espanhola. . (...) Retornou ao Brasil em vôo da companhia aérea Ibéria (...) A partir de solicitação de V. T. e uma ONG espanhola fomos recepcioná-la no Aeroporto Internacional de Guarulhos à 7:00h. Mantivemos contato com um delegado de seu Estado de origem, considerando a inexistência de serviços de atendimento para essa demanda e considerando também a possibilidade da vítima manifestar o interesse de reiterar sua denúncia já concretizada na Espanha (...). A jovem retornou ao Brasil grávida de 4 meses. (...) viajou sem saber que estava grávida [sic] com proposta para trabalhar na prostituição e garantia de rendimentos semanais de cerca de 500 euros. De Bilbao foi levada para a Boite La Francia, próxima à praia. Alega que viajou logo que completou 18 anos porque se encontrava muito deprimida com a morte de seu genitor e após também uma forte discussão com seus familiares. Já tem uma menina de 2 anos com o mesmo pai biológico. Foi através do convite de uma amiga, que já tinha morado em sua casa, que resolveu aceitar a proposta. Entusiasmada, recebeu passagem, passaporte e 55 Euros para a viagem. Foi levada para Bilbao mas o Clube ficava em um povoado distante 200 km. da cidade. Eram muitos quartinhos e lá também se encontravam outras 8 brasileiras, inclusive 3 da sua cidade. Soube que estava grávida e mesmo assim teve que manter relações sexuais para pagar a dívida contraída de cerca de 4000 Euros. Recebia empréstimo de 5 euros para ligar para a família 1 vez por semana. Era constantemente ameaçada e intimidada. "Outras também apanhavam". Não teve o passaporte retido, mas também não podia deixar o Clube por conta da dívida. Não suportando a humilhação ("só recebi um preservativo por dia"), após ter recebido um presente de um cliente, resolveu denunciar a organização criminosa à polícia espanhola, que fechou o local. Resolveu colaborar com as autoridades, mas não quis permanecer na Espanha, mesmo tendo recebido proteção e abrigo, além de oportunidade de fazer curso profissionalizante. Estava com saudades da filha e arrependida de ter discutido com seus familiares. Recebeu orientação jurídica, social e telefone das autoridades brasileiras em seu Estado natal (Relatório, 20 de dezembro de 2007).

Considerações finais

A equipe do Posto trabalha com o fortalecimento do indivíduo de forma a emancipar o sujeito-vítima para sujeito de direitos, respeitando-se a dignidade da pessoa humana. O Posto acolhe essas pessoas, dá informações e encaminha suas demandas, desde uma simples orientação sobre os trâmites dentro do aeroporto, até abrigamento e recâmbio, quando necessários. Entretanto, a experiência mostrou que ainda são raros os serviços capacitados para receber a vítima de tráfico ou a mulher migrante cujos direitos foram violados, serviços que contemplem, entre outras demandas, o atendimento psicológico e programas de reinserção social. Vemos, no entanto, uma maior atenção dada ao tráfico de pessoas como crime que deve ser punido. O tratamento a suas vítimas é colocado em segundo plano. Para Kempadoo (2005:67): Ao priorizar o crime, a punição e o controle da imigração, a abordagem do governo global diverge agora das perspectivas que foram geradas a partir de cuidados com a justiça social e os direitos humanos, particularmente das mulheres (...). [Além disso] problemas estruturais globais que produzem o tráfico - globalização, patriarcado, racismo, conflitos e guerras étnicas, devastação ecológica e ambiental e perseguição política e religiosa - são raramente tocados no paradigma hegemônico sobre o tráfico. São esses problemas estruturais que permanecem como fenômenos globais importantes para analisar, desconstruir e combater (Id., ib.: 68-69). Da experiência do Posto, fica a percepção de que o debate sobre gênero, migração e tráfico de pessoas deve ser ampliado a fim de que sejam implementadas políticas públicas próximas à realidade e às necessidades dessas pessoas. Políticas com ações que tenham capilaridade, que sejam capazes de atingir municípios distantes de capitais. A estruturação dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS), Centro de Referência da Mulher, além da implantação de novos centros, previstas no Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas9, pode ser um caminho para iniciarmos a formação de uma rede de retaguarda capaz de atender mulheres migrantes cujos direitos tenham sido violados, traficadas ou não. Além do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a equipe do Posto considera o Sistema Único de Saúde (SUS) como forte aliado no atendimento a essa demanda, além da atuação na prevenção ao tráfico de pessoas. Além disso, é visível a necessidade de programas permanentes de sensibilização e capacitação de agentes públicos em tráfico de pessoas e gênero, a fim de que direitos não sejam violados de forma recorrente. Por fim, é importante reiterar que o trabalho do Posto demonstrou que a situação dos/as deportados/as e inadmitidos/as, independente de apresentarem ou não indícios de tráfico de pessoas, precisa ser enfrentada com políticas públicas efetivas que garantam os direitos humanos desse público.



Referencias Bibliográficas
ALIANÇA GLOBAL CONTRA O TRÁFICO DE MULHERES. Direitos Humanos e Tráfico de Pessoas: um manual. Rio de Janeiro-RJ, GAATW, 2006.   
FERREIRA, Rosário de Maria da Costa. Direitos Humanos e Sexualidade. Caderno de Conteúdo - Fortalecimento da rede de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes, Guarulhos-SP, Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude (ASBRAD)/Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR), 2008.      
KEMPADOO, Kamala. Mudando o debate sobre o tráfico de mulheres. Cadernos Pagu (25), Campinas-SP, Núcleo de Estudos de Gênero - Pagu/Unicamp, 2005.   
LISBOA, Tereza Kleba. Gênero e Migrações. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana (26 e 27), Brasília-DF, Centro Scalabriano de Estudos Migratórios, 2006.    
MASSULA, Letícia e MELO, Mônica de. Tráfico de Mulheres: Prevenção, punição e proteção. São Paulo, Consulado Geral dos Estados Unidos da América/CLADEM - Comitê da América Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, 2003.      
PISCITELLI, Adriana. Sujeição ou Subversão? Migrantes brasileiras na indústria do sexo na Espanha. Revista História e Perspectivas (35), Uberlândia-MG, Universidade Federal de Uberlândia, 2006.    
SECRETARIA NACIONAL DE JUSTIÇA. Política nacional de enfrentamento ao tráfico de pessoas. Brasília-DF, SNJ, 2008.        
______. Pesquisas em Tráfico de Pessoas. Parte 3 - Tráfico internacional de pessoas e tráfico de migrantes entre deportad os/as e não admitid os/as que regressam ao Brasil via o aeroporto internacional de Guarulhos. Brasília, Secretaria Nacional de Justiça/OIT, 2007 (coord. Técnica: Adriana Piscitelli).     
______. Pesquisas em tráfico de pessoas. Parte 2 - Relatório indícios de tráfico de pessoas no universo de deportadas e não admitidas que regressam ao Brasil via aeroporto de Guarulhos. Brasília, Secretaria Nacional de Justiça/OIT,2006 (coord. Técnica: Adriana Piscitelli).      


Deportados são aqueles que moram em um outro país e são "devolvidos" por terem ultrapassado o período de permanência concedido pela autoridade migratória, ou por terem cometido algum tipo de infração. Já a inadmissão acontece quando a autoridade estrangeira recusa o ingresso no país de destino, geralmente por desconfiar de uma potencial imigração irregular. Tal atitude é legitimada pela soberania do país.
No primeiro semestre de 2005 foi realizada a pesquisa "Indícios de Tráfico de Pessoas no Universo de deportadas e inadmitidas que regressam ao Brasil via Aeroporto Internacional de Guarulhos" e, em novembro de 2006, a pesquisa "Tráfico Internacional de Pessoas no universo de homens, mulheres e transgêneros deportados/as que retornam ao Brasil via aeroporto Internacional de Guarulhos", ambas coordenadas pela antropóloga Adriana Piscitelli (Secretaria Nacional de Justiça, 2006; 2007).
Cordaid é uma organização social que se empenha no combate duradouro à pobreza em mais de 40 países da África, Ásia, América Latina, Oriente Médio, Europa Central e Oriental e Holanda. Sediada em Haia, Holanda, a organização surgiu em 1999 a partir da fusão das organizações católicas de desenvolvimento - Memisa, Mensen in Nood e Bilance (Vastenaktie e Cebemo).
"possíveis" vítimas de tráfico está aspeado porque, entre aquelas que relatam suas histórias, não necessariamente se tratam de pessoas traficadas. Além disso, são abordadas também pessoas que apresentaram indícios de terem sido traficadas, mas não quiseram, ou não puderam, relatar suas histórias.
Segundo a pesquisadora Adriana Piscitelli, "trans" é um termo êmico freqüentemente utilizado para aludir ao conjunto de pessoas consideradas travestis, transexuais ou transgêneros.
A imprensa brasileira retrata a visão européia da mulher brasileira em manchetes como "Europa tem 75 mil prostitutas do Brasil" (O Estado de S.Paulo, caderno Metrópole, página C1, 18 de maio de 2008) e "Brasileira = Prostituta. É assim que a Europa nos vê" (Claudia, maio 2008, pp.130-131). Relaciona, ainda, a prostituição ao tráfico de pessoas, sem discutir o Protocolo de Palermo.
Nas abordagens realizadas em 2008 não se verificou o uso dessas fichas pela Polícia Federal.
"Além da prisão, detenção e deportação, como modos imediatos de disposição das mulheres, homens, meninas e meninos objetos de tráfico nos países de destino, essas pessoas, quando 'resgatadas', são em geral devolvidas aos países de origem como migrantes sem documentos, e têm de enfrentar a vergonha e a humilhação que acompanha tal categorização e o status de deportada" (Kempadoo, 2005:68).
A Prioridade número 5 do PNETP é "Articular, estruturar e consolidar, a partir dos serviços já existentes, um sistema nacional de referência e atendimento às vítimas de tráfico" (Secretaria Nacional de Justiça, 2008:86-87).

17 de dez. de 2010

  Entre mulheres agredidas, 25,9% são vítimas de companheiros (G1) 

Entre as mais de 1 milhão de mulheres que relataram, em 2009, ter sido agredidas, 25,9% foram vítimas de companheiros ou ex-companheiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A informação faz parte do suplemento “Características da Vitimização e do Acesso à Justiça no Brasil – 2009”, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Homens e mulheres foram principalmente agredidos por pessoas desconhecidas (46,4% e 29,1%, respectivamente) e por pessoas conhecidas (39,3% e 32,3%, respectivamente). Dentre as mulheres, 25,9% foram agredidas pelo cônjuge ou ex-cônjuge. Entre os homens, esse índice é de 2%.
Entre todas as vítimas de agressão, 1,4 milhão relataram não ter procurado a polícia. Dentre os motivos apontados para isso: a vítima não considerava importante (18,2%), tinha medo de represália ou não queria envolver a polícia (33,1%).
folhasp151210_agressoes250 folhasp151210_ajuda250
Fonte: IBGE

3 de dez. de 2010

Mulheres:

Vítimas dos homens, do sistema e da imprensa


Por Ligia Martins de Almeida
Uma mulher morta pelo ex-namorado porque queria o reconhecimento da paternidade do filho, uma adolescente estuprada pelo ex-namorado junto com seus amigos e uma advogada jogada numa lagoa pelo também ex-namorado: essas as mulheres [vítimas] se tornaram destaque na idia nacional, e internacional.
Uma conclusão é de que as mulheres continuam sendo vítimas de violência. Mas outra conclusão é de que a mídia só gosta – cada vez mais – de casos envolvendo celebridades. Se há gente conhecida envolvida nos crimes, a mídia – especialmente a TV – não se cansa do assunto e adora fornecer aos espectadores os detalhes, por mais terríveis que sejam. Parece que quanto mais macabro o crime, e quanto mais conhecidos os envolvidos, melhor para a audiência.
O primeiro caso foi explorado ao extremo pela TV. Afinal, o culpado é uma celebridade, um ídolo popular, goleiro de um grande time carioca "com um futuro brilhante", como disseram os comentaristas, entre as análises exaustivas (seria melhor dizer "enjoativas") dos psicólogos de plantão nos programas matutinos e vespertinos das TVs abertas na quinta-feira (8/7). Quem mudasse de canal naquele dia veria sempre o mesmo script: um ou dois apresentadores conversando com um psicólogo e um jurista.
Se os advogados de defesa de Bruno e seus amigos (ou seria melhor dizer cúmplices?) estavam procurando argumentos para defesa, devem ter encontrado muitos nos programas de TV: a falta de uma estrutura familiar do goleiro na infância, os sinais de psicopatia etc. Do lado dos advogados, a sugestão era clara: como Bruno não teria participado diretamente do crime, pode pegar uma pena menor do que a do executor. Teria havido um excesso de zelo por parte dos amigos, querendo agradar seu ídolo. Baboseiras que renderam programas de manhã e à tarde, deixando os espectadores cada vez mais indignados com o caso.
Surpreendentemente discretas
Não é de admirar que, nesse clima, os irmãos do goleiro, crianças que vivem na Bahia – conforme noticiaram os jornais – fossem agredidos na escola e chamados de assassinos. Nem é de admirar que a mídia fique horas acompanhando ao vivo a chegada dos presos à delegacia – com direito à gaiola no carro transporte – e sua transferência para outra cidade. Como se esse fosse o único assunto de interesse da população. Isso para não falar da repetidíssima entrevista do indignado delegado que deu a investigação por encerrada, contando detalhes do crime como se tivesse decorado um texto escrito por um roteirista de filme de terror. Com direito a olhos marejados e tudo mais.
O que espanta é que, em momento algum, o verdadeiro crime – com as verdadeiras vítimas – seja discutido. Nem mesmo quando o goleiro se mostra espantado com a duração da pena prevista para homicídio os jornais lembram de falar da maior perversidade dessa história toda: mulheres sendo mortas ou vítimas de abuso por seus ex-companheiros.
Foi assim com Eliza Samudio e foi assim com a advogada Mércia Nakashima, encontrada morta no dia 11 de junho, em uma represa de Nazaré Paulista, SP (Folha de S.Paulo, 11/07/2010). O acusado é o ex-namorado, um ex-PM que, segundo a família, "não aceitou o fim do relacionamento" e, por isso, teria cometido o crime.
Foi assim também com a jovem catarinense, vítima do ex-namorado e seus amigos. O caso de Florianópolis foi amplamente debatido pela internet, mas só ganhou destaque na imprensa quando a Procuradoria entrou no caso e a família (os Sirostky, donos da RBS, cadeia de jornais e TV no Rio Grande do Sul e Santa Catarina) lamentou o acontecimento em uma nota oficial. As notícias, nesse caso surpreendentemente discretas, contrariam o procedimento habitual da mídia quando fatos policiais envolvem celebridades ou socialites.
Código de silêncio
De todo o exaustivo noticiário dos jornais e TVs sobre as mortes de Eliza e Mércia, só um jornal, O Estado de S.Paulo, discutiu o que interessa: por que as mulheres continuam sendo vítimas de violência. No artigo "Patriarcado da violência", a antropóloga Débora Diniz explica:
"O crime passional não é um ato de amor, mas de ódio. Em algum momento do encontro afetivo entre duas pessoas, o desejo de posse se converte em um impulso de aniquilamento: só a morte é capaz de silenciar o incômodo pela existência do outro. Não há como sair à procura de razoabilidade para esse desejo de morte entre ex-casais, pois seu sentido não está apenas nos indivíduos e em suas histórias passionais, mas em uma matriz cultural que tolera a desigualdade entre homens e mulheres... O modelo patriarcal é uma das explicações para o fenômeno da violência contra a mulher, pois a reduz a objeto de posse e prazer dos homens. Bruno não é louco, apenas corporifica essa ordem social perversa" (O Estado de S. Paulo, 11/07/2010).
Talvez essa "ordem social perversa", citada no Estadão, explique também o desinteresse da mídia em discutir a violência contra as mulheres. Se a morte de Eliza "era um crime anunciado", como diz a antropóloga em seu artigo, a omissão da mídia, quando a moça denunciou a violência na Delegacia da Mulher, talvez seja apenas o resultado dessa situação. Mulher vítima de maus-tratos por parte do companheiro, namorado ou marido é, para a mídia, parte do código de silêncio citado por Bruno em uma entrevista: "Em briga de marido e mulher, não se mete a colher." Principalmente, para a imprensa, quando o marido é um ídolo popular.
O interesse da mídia só foi despertado depois, quando o crime tinha sido cometido com requintes de barbárie que, com certeza, ajudam no ibope e na venda de jornais e revistas.

1 de dez. de 2010

 Larissa querida
[Após levar pancadas do próprio Pai, Larissa morre em 24/11/2010] 
         
por Carla Batista
Mestranda do PPGNEIM/ UFBA

Eu hoje chorei muito. Eu sei que ninguém tem nada a ver com isso, mas a minha dor foi muito grande quando li no jornal O Globo que uma garota havia sido morta por pancadas do seu pai, porque ela estava namorando em praça pública.
O que aconteceu com ela me remeteu ao que aconteceu comigo aos 12 anos e comecei a namorar com um primo, 6 anos mais velhos que eu. O namoro começou num dia de festa na cidade. Uma cidade do interior de Goiás. A festa era na rua em frente a minha casa, aonde nos encontramos e acabamos nos sentando no seu carro para poder conversar tranquilamente sobre o que sentíamos em relação um ao outro. Estávamos tão encantados, de mãos dadas, que nem percebemos o final da festa. Quando desci do carro minha família já estava me procurando, algumas pessoas nervosas. A 'fantasia' geral era que eu tinha ido para a lagoa, lugar proibido porque toda moça que ia namorar ali estava completamente perdida para qualquer possibilidade de casamento.
Parece que havia também uma preocupação em relação a este rapaz com quem eu estava. Talvez por pressentimento, porque nesta época meu primo ainda não era o que veio a ser mais tarde: uma pessoa com várias temporadas na cadeia. Era, naquela época, um rapaz filho da 'melhor' classe media da cidade, sempre presenteado com o último carro esporte, estudante do melhor colégio da capital e outras coisas valiosas naquele interior.
Mas o fato é que fui recebida aos gritos e ameaças da chegada do meu pai para me dar um corretivo. Minha memória tem muitas lacunas, mas me lembro que neste dia, sem pressentir o que viria, vesti a minha melhor camisola, que era azul clara, cheia de preguinhas. Possivelmente porque para mim ter começado aquele namoro merecesse algum tipo de comemoração, como vestir a camisola mais linda para dormir! Corte. A lembrança seguinte é de minha mãe, meu irmão mais velho, não sei se outras pessoas estiveram ali sentadas no sofá. Eu, levando uma surra memorável do meu pai. Pontapés, puxões de cabelo, cinturão... tudo o que se possa imaginar de mais bruto. No final de todas as pancadas a minha mais linda camisola azul ficou em frangalhos. Disso e das dores sentidas me lembro bem. E sempre me recordo das pessoas que assistiam a aquele ato de violência. Olhavam atentas, quietas, caladas, aprovando, compartilhando. Eu nunca consegui distinguir o que doía mais em mim em todas estas lembranças.
Eu hoje chorei muito porque esta moça que morreu por estar começando a namorar – que lindo poderia ser na vida de qualquer pessoa! - provavelmente não era uma moça com tanta saúde, resistência e raiva como eu naquele momento. Provavelmente, porque o seu pai foi muitas e muitas mais vezes mais violento que o meu. Não sei o que aconteceu direito porque as notícias complementares ainda virão. Mas me dei, feminista que sou, a pensar em como o desejo e o prazer das mulheres é desde cedo punido, culpabilizado, estraçalhado, transfigurado, eliminado, em último caso. O prazer e tudo o mais que se relaciona a ele. As relações amorosas, os/as filhos desejados ou não, o simples desejo de transar por transar, de mostrar o corpo e se sentir bonita, desejada, etc, etc, etc... Quem sabe apenas a vontade de se sentir segura diante de tantas inseguranças que nos são impostas permanentemente, como formas de dominação e controle. O prazer e o cerceamento dele foram sempre duas experiências vividas de forma concomitantes para a maioria, senão para todas as mulheres.
As instituições todas elas, igreja, família, Estado e para além delas os namoros, as amizades, não estão preparados a permitir e, indo mais além, a estimular todas as nossas possibilidades de vida criativa, construtiva, prazerosa e feliz. Viver com autonomia e ser respeitado/a nas suas escolhas não pode ser incompatível com um projeto de construção democrática no sentido mais amplo: em todos os espaços de convivência nos quais circulamos e atuamos.
No caso de Larissa, considera-se que não houve dolo por parte do pai. Ele não teve o intuito de provocar a sua morte. Eu, diria que ele teve 'apenas'o intuito de matar o seu desejo, sua vontade de viver com prazer e alegria. Como a vida pode ser vivida sem isso? Como se pode querer que alguém viva sem isso?


OS FATOS DESTA TRAGÉDIA


Larissa que queria ser médica morre após apanhar dos pais.
Larissa queria...
Pai é acusado de chutar a cabeça de Larissa Rafaela Kondo de Lima após descobrir que ela estava namorando
Larissa Rafaela Kondo de Lima, 15 anos, estudante do primeiro ano do ensino médio do Centro Paula Souza sonhava em ser médica. Estava descobrindo a vida, conhecendo pessoas e, como toda garota, buscando o primeiro amor.Essa trajetória foi interrompida na madrugada desta quarta-feira, quando ela morreu, vítima de um edema pulmonar, no Hospital Estadual, em Bauru. A estudante apanhou, na noite de terça-feira (23), do pai, José Carlos  de Lima, 42 anos, e da mãe, de 38 anos. O motivo: ela estava namorando escondida na praça de Cafelândia, onde morava com seus pais.
O pai foi preso em flagrante por lesão corporal dolosa seguida de morte. Ficou por algumas horas na cadeia de Promissão, mas foi solto por volta das 20h.
Segundo informações do delegado de Cafelândia, Adilson Carlos Vincentini Batanero, a mãe denunciou o marido, dizendo que ele havia chutado a cabeça da filha, quando discutia com ela sobre o namoro às escondidas, por volta das 20h de terça. Quando passava da meia noite, Larissa passou mal. Vomitava no banheiro. Pai e mãe a levaram para a Santa Casa de Cafelândia. A vítima já estava desacordada.
 Em seguida, como seu estado de saúde não evoluia, foi transferida para o Hospital Estadual de Bauru, onde morreu.  Uma amiga próxima, de 14 anos, lamentava a morte. “Ela era alegre, feliz. Queria ser médica”, afirma. Queria.

30 de nov. de 2010

Uma em cada 3 mulheres será estuprada, violentada ou espancada em algum momento da sua vida 

 

Renata Neder

“Com o meu pai nunca tive problemas. Ele morreu cedo, morto no conflito armado no país. Ficamos só minha mãe, eu e minhas oito irmãs. Mas com meu compaheiro de vida, ah… com esse sim eu sofri. Ele sim me batia. E na época eu ainda não tinha me deselvolvido bem, não tinha aprendido nada, não sabia de muitas coisas… tive que aguentar. Ele me bateu várias vezes.”

Marta Lidia Campos é de El Salvador, na América Central, é trabalhadora rural e tem dois filhos, um menino e uma menina. Conheci a Marta em 2007, quando ela me deu um longo depoimento sobre sua história de vida. De lá pra cá, conheci muitas mulheres de diferentes países que sofrem diversas formas de violência. Nesses anos, aprendi que a violência contra a mulher não é uma exceção, um caso isolado. É um problema global, que ultrapassa fronteiras.
Uma em cada três mulheres será estuprada, violentada ou espancada em algum momento da sua vida. 1 em cada 3. Algo em torno de 2 milhões de meninas entre 5 e 15 anos são “traficadas”, vendidas ou coagidas a se prostituir. Os dados chocam, não é?
Nos últimos anos, na África de Sul, uma nova onda de violência e preconceito emerge com casos sucessivos de “estupros corretivos”. Homens estupram mulheres  gays com o objetivo de corrigir sua homossexualidade. Uma dupla violência, contra a integridade física da mulher e também contra sua opção sexual.
“Eles me ameaçam, dizendo que vão me estuprar e que depois que eles me violentarem eu vou me tornar uma mulher, que eu vou me tornar uma mulher hetero” diz Z. de 23 anos. O medo de Z. é real. Em 2007, duas mulheres foram violentadas, espancandas e mortas por serem lésbicas. Até hoje, ninguém foi punido.
Na Índia, a discriminação e a violência começam em uma fase bem precoce da vida da mulher: quando ela ainda é feto, na barriga da mãe, ou ainda recém-nascida. Filhas mulheres estão desaparecendo no país. A preferência por filhos homens é tão forte que as filhas mulheres muitas vezes são simplesmente descartadas. Quando não havia a possibilidade de descobrir o sexo do neném antes do nascimento, muitas eram abandonadas ao nascer. Agora, com tecnologia de ultrassom, a gravidez é interrompida. O problema é tão grave que já está gerando discrepâncias demográficas em algumas províncias do país e levou o governo a restringir a realização de exames que identificam o sexo do bebê.
R., de 25 anos, já tinha uma filha e ficou grávida novamente. Ao descobrir que era mais uma menina, ela fez um aborto. Por mais contraditório que pareça, ela mesma não queria ter filhas mulheres. “As mulheres sofrem violência em toda as esferas da vida. Sabendo o tipo de assédio e preconceito que minha filha sofreria depois de nascer, eu acho que é melhor  não nascer”.
El Salvador, África do Sul e India. Três países, três continentes, uma realidade: discriminação e violência contra a mulher. Uma realidade que ultrapassa fronteiras, classes sociais, identidades culturais. Uma realidade global.
Que tal fazermos a nossa parte para mudar essa realidade pelo menos falando sobre o assunto, discutindo, debatendo e, acima de tudo dizendo NÃO para todas as formas de violência contra a mulher?